⚞ Capítulo 1 ⚟

Eu era muito criança quando aconteceu o ataque as torres gêmeas em Nova York, pude ver a minha família falando sobre aquilo como se fosse um acontecimento terrível que o mundo estava passando. Mas naquela idade eu não entendia o que era essa coisa tão terrível. Só sabia que pessoas estavam morrendo e iam para o céu ficar lá com o meu vô.

Depois quando já estava maior, no colégio, estudei sobre o ocorrido e pude compreender que catástrofes aconteciam, às vezes através de guerras, às vezes através de desastres naturais como foi com a tsunami no oceano índico que também levou muitas pessoas dessa vida.

A única coisa que eu não imaginava era que algo do tipo aconteceria na minha vida enquanto adulta, sequer passava pela minha cabeça que um dia eu e a minha geração também estaríamos nos livros de história.

Um vírus.

Sim, a porcaria de um vírus, um pequeno vírus. Um ser microscópico aparentemente tão insignificante quando comparado a raça humana, que foi capaz de dominar o planeta por completo. Um serzinho desses, foi eficiente o bastante para nos mostrar que somos ainda vulneráveis a alguma coisa que não a nós mesmos.

Sério, ele morre com sabão. E mesmo assim colocou o mundo inteiro aos seus pés!

Dizem ser proveniente do morcego e começou a levar as pessoas na China para o hospital e em poucos meses a Organização Mundial da Saúde (OMS), estava declarando uma pandemia, pois pessoas doentes estavam aparecendo em toda parte do globo.

No Brasil, o ministro da saúde pediu para que quem pudesse fosse se refugiar no campo, as escolas entraram em recesso, as empresas começaram a adiantar férias e separar trabalho em home office para seus funcionários.

As ruas começaram a ficar desertas, apenas mercados, farmácias, padarias estavam funcionando. O resto quem podia fazia venda online e entrega em casa.

Minha avó matriarca da família ligou para todos e exigiu, como só ela podia, que todos fossem para o sítio do meu tio Almir. Sei que isso gerou umas brigas e desentendimentos, principalmente por ela ser idosa e por isso estar no grupo de risco do vírus, mas no final ninguém tinha coragem de não cumprir uma ordem dada pela vova.

Ela também tinha um ponto bastante racional, toda a minha família tinha alguém no grupo de risco. E se estávamos todos indo para o isolamento estaríamos todos mais protegidos.

Minha mãe é diabética, tio Almir tem Lúpus, vovó é idosa, Luciano tem bronquite, Antonieta possui imunidade baixa por causa dos seus tratamentos de vacina de alergia, tio Carlos é hipertenso, e por aí vai…

Ninguém está realmente livre, todos nós estamos e convivemos com alguém que está no grupo de risco. Por esse motivo, não podemos pensar individualmente, precisamos pensar no coletivo.

É melhor que estejamos todos juntos a salvo, do que separados e distantes correndo risco. A vova é a âncora e também a corda que une toda a nossa família. Acho que toda família grande precisa de alguém para ser a árvore que une todas as ramificações.

Minha mãe me ligou ontem e avisou para que eu deixasse tudo pronto que ela, papai e as gêmeas estariam passando aqui para me buscar. Iríamos todos juntos para o Sítio das Araras localizado na Serra da Mantiqueira.

Como não fazia ideia de quanto tempo isso ia durar tomei a precaução de desligar todos os aparelhos eletrônicos da tomada e fechei bem a janela da minha humilde kitnet. Porque se tiver uma chuva de vento aqui em casa entra tudo pela janela e eu perco tudo que eu tenho. E ok, eu não tenho muita coisa tento viver a vida no minimalismo, mas tudo que eu tenho até hoje foi com o suor do meu trabalho.

Já está quase no horário combinado e eu me encontro sentada em cima da minha mala na portaria do meu prédio olhando para a rua deserta. Nunca teve porteiro nesse prédio, as pessoas tocam o interfone e é cada um por si. Diferente do prédio dos meus pais em que o senhor Jorge vivia conversando com quem quer que passasse lá pela portaria.

Lembro-me da época do colégio em que eu voltava para casa e tinha que aguardar na portaria o horário de saída das gêmeas da escola. Eu sempre ficava esperando com o Senhor Jorge tendo altas conversas sobre os meninos, as garotas que me azucrinavam a vida, os professores que sempre pegavam no meu pé. Senhor Jorge era bom em dar conselhos. E ele sempre avisava “Olha lá, tocou a sineta do colégio das suas irmãs”, que para minha sorte ficava na frente do nosso prédio.

Eu tinha sempre que interromper a nossas grandes conversas para ajudar as duas pequenas a atravessar a rua. Mamãe sempre teve muito medo da rua da frente daquele prédio, mesmo com o sinal, volta e meia tinha um engraçadinho que avançava.

Espero que Seu Jorge não sofra com essa situação do vírus, afinal ele trabalha com público, é um emprego bastante arriscado.

Um único carro vem ao longe e sei que é o carro dos meus pais, pois consigo ouvir daqui os berros das gêmeas brigando uma com a outra. Ter irmãs adolescentes dá um trabalho. As coisas só começaram a ficar mais leves para mim quando saí de casa e fui me refugiar na cidade vizinha no auge dos meus vinte anos.

Cecy coloca a mão para fora do carro acenando para mim. Minha irmã Maria Cecília é uma jovem muito bem humorada sempre de bem com a vida e nada nesse mundo é capaz de tirá-la do sério, nem a sua irmã gêmea mais mau humorada do mundo, Maria Luíza, ou para os íntimos Malu. Elas são literalmente o significado de Yin e Yang.

Papai encosta o carro e dá dois toquinhos na buzina. Mamãe está tão apegada ao seu celular que nem olha para mim. Quero só ver se ela vai conseguir continuar sendo uma workaholic na frente da minha avó por todo esse tempo. Já prevejo vova falando “Débora, largue essa porcaria enquanto eu estou falando com você! Quando eu não estiver mais aqui você vai se arrepender de não ter me dado a atenção que devia”

— Como você está, Tatá? Tem tomado cuidado para não pegar esse vírus? Não ficou dando mole pela rua, não né? A coisa tá séria. Não podemos brincar com esse inimigo invisível. A Itália tá sofrendo a duras penas. A cada dia tem um recorde de mortes por lá, coisa horrível!

— Tudo certo pai, não se preocupe que eu me cuidei direitinho. — Ele abriu a mala do carro e eu levantei a minha mala para colocar de algum modo em cima daquela pilha de tralhas que minhas irmãs tinham a mania de carregar. Para quê tanta coisa quando se está indo para o mato?

— Ai, ai, eu disse para elas que ia ficar complicado de fechar essa mala depois que você colocasse as suas coisas. Mas ninguém me escuta nessa casa eu sempre me sinto oprimido no meio de quatro mulheres.

Sorri, ele adora fazer esse drama que vive em desvantagem porque é o único homem da nossa casa.

— Ora! Você sempre teve a opção de adotar um menino para não ficar em desvantagem. Ninguém tirou esse direito de você.

— Como se vocês não fossem bocas suficientes para alimentar! — ele gira os olhos de maneira irônica. — Se tivesse mais um filho eu iria a falência. Bendito foi o dia que sua avó me aconselhou a fazer a vasectomia, porque se dependesse da sua mãe estaríamos morando debaixo da ponte com um time de futebol inteiro para dar de comer.

— Aposto que ela iria nos agenciar para jogarmos futebol e arrumarmos dinheiro por conta própria para não ficarmos morando debaixo da ponte. — digo, e ele acena concordando com o meu raciocínio. — Vamos dar um jeito aqui. — Coloco a mão no queixo parando para pensar que milagre pode ser feito com essa mala. — Já sei! Eu vou jogar as coisas da Malu na rua e coloco as minhas.

— Eu tô ouvindo viu, ô engraçadinha! Faça isso que eu acabo com a sua reputação. Não que você tenha alguma…

— Pai, deixa a mala da Tatá aqui com a gente e coloca a Malu aí atrás que é o lugar dela. — falou Cecy

Sorri e entrei no carro ao mesmo tempo que papai fechava o porta mala.

— Cheguem pra lá, suas gordas! — eu falo empurrando as minhas irmãs.

— Quem é que você pensa que está chamando de gorda aqui, anta? — resmunga Malu.

— O que você está fazendo com essa máscara? Quer matar vovó do coração? — Olho firme para Malu.

— Já falei pra ela tirar isso da cara que isso é só pra quem está doente. — respondeu a minha mãe virando para trás finalmente para me cumprimentar.

— Eu só quero estar segura contra aquele melequento do Luciano. A gente não sabe o que aquele pivete do capeta vai fazer. Nas últimas férias eu peguei ele colocando meleca no meu travesseiro. — resmunga Malu.

— Como se vocês duas nunca tivessem feito nada contra ele, não é? Eu sei muito bem que vocês viviam arrumando confusão com ele e com o Maurício. Mesmo quando eles estavam quietos no canto deles. — Olho de lado para Malu — Maninha, quem não te conhece que te compre! Como já diz a nossa vova. — Ela gira os olhos sem argumentos. Dou por encerrado esse assunto e volto-me para mamãe. — Como estão as coisas, mãe?

— Tudo certo. Acho que terei uma queda nas vendas nos próximos meses, mas a empresa tá com caixa pra aguentar pelo menos quatro meses. Espero conseguirmos sobreviver a essa crise, infelizmente muita gente vai quebrar. É uma situação aterrorizante porque o país já tem muitos desempregados, ainda não saímos da recessão direito e essa crise vai complicar as coisas.

— Sim, temo pelo meu emprego também. Estamos em um momento em que tudo está muito incerto. E você, pai? Como vai a vida de aposentado?

— Me aposentei na hora certa. — diz ele. — Fugi dessa reforma da previdência e também não estou perdendo meus cabelos por conta dessa crise.

— Que cabelos, pai? Quando eu nasci você já não tinha muitos cabelos aí pra contar história. — responde Cecy.

— Só sabe ver Netflix o dia todo, ele fala assim, mas sabe muito bem que a reforma da previdência era necessária. Ele tem noção de que o governo está fazendo o que pode. — reclamou Malu.

— Já trabalhei muito nessa vida. Agora é a vez de vocês. — ele sorri e liga o carro. — Tira essa máscara da cara Maria Luíza. E olha, eu não quero saber de você entrando em confusão com nossos parentes por conta de política hein, você sabe que tem muita gente ali com opiniões contrárias. Vamos tentar manter a paz para que possamos conviver o tempo que for preciso.

Malu tira a máscara fazendo uma careta e fala:

— Não vou aguentar ficar no meio do mato isolada do mundo cheio de gente chata a minha volta. E ainda tendo que aturar defensor de bandido. Não tô aqui pra isso.

— Não seja por isso, maninha, quando você se sentir assim vai no curral que você vai encontrar a sua galera de novo.

— Cecy! — Minha mãe repreendeu, o que nem adiantou porque Malu já tinha levantado a mão para bater na nuca da minha irmã.

— Aí! Vocês não vão começar com isso aqui em confinamento não, né? — Eu reclamo já sendo atingida pela troca de tapas das duas. — Coisa chata, faz um tempão que vocês não me veem e a gente tem tanto pra colocar em dia será possível que vocês não conseguem ficar um minuto sem brigar?

Elas pararam de se estapear cruzaram os braços na frente dos peitos e uma virou a cara para o lado oposto da outra. Como duas crianças.

— Sabe se o seu chefe vai fechar o cursinho, filha?

— Eles estão estudando uma maneira de ensinarmos os alunos a distância. Se os alunos cancelarem a matrícula não sei o que será do cursinho. Pode ser que eles tenham que fechar as portas. Sei que eles têm uma plataforma sendo criada para ensino a distância, mas ainda não está pronta e isso tudo aconteceu tão de repente que ele disse que precisa se reunir com a matriz para formarem um plano de ação e não deixarem os alunos sem aula.

— É uma boa ideia. Esse vírus vai quebrar muita gente. Quem iria imaginar uma situação assim, se ficarmos muito tempo nesse isolamento é capaz da economia do país ir pro buraco de vez. — disse mamãe.

Papai acelerava conforme subia na autoestrada. Nunca vi essas avenidas tão vazias assim, praticamente só tinha caminhão.

— Espero que sai logo uma vacina. — Cecy falou pensativa.

— Eu li que vacinas vão demorar pelo menos um ano para estarem no mercado, porque tem que fazer teste em animais antes de testarem em humanos. — Malu disse.

— Em Seattle já estão fazendo testes em humanos e parece que pularam os testes em animais. — Cecy responde.

— Tinha que ser! Era só o que faltava a gente viver iZombie na vida real. Já não bastava o tanto de filme de epidemia e pandemia que estamos vivendo. Me sinto em um filme de horror, cada dia aparece uma notícia ruim e mesmo assim as pessoas dizem para não entrarmos em pânico. Como, né?

— iZombie? O que é isso? — mamãe pergunta. Achando que provavelmente seria algum equipamento novo da Apple. Que por sinal, ela tem todos. Diz que ajuda em seu trabalho em seus exercícios, enfim, não tem empresa melhor na opinião dela para ajudar e facilitar a vida de uma mulher empresária, independente que quer se manter saudável, ativa, bonita e conectada. Como toda mulher empoderada da atualidade.

— Uma série, querida. — Papai responde, sabendo que ela raramente se proporciona um momento de lazer para assistir séries. — Se você quiser nas suas férias…

— Que férias? — ela questiona sem nem deixar ele responder. E também é interrompida pelo toque de seu celular. Mamãe levanta o dedo em riste pedindo um minuto para o meu pai — Preciso atender, é o meu fornecedor.

— As pessoas falam para não entrar em pânico, Malu, porque tem um bando de maluco indo para o mercado estocar papel higiênico. Achando que é o fim do mundo. — fala Cecy.

— E por outro lado tem um bando de gente que acha que isso não é nada. Fiquei sabendo que as praias estão cheias. — completo.

— Sim, meu amigo fez um stories ontem na praia, ele faz parte dessas pessoas que pensam que isso tudo é uma mentira inventada pelo governo para quebrar a economia global.

— Se fosse uma mentira inventada pelo governo a Janaína não estaria tão atarefada, coitada. — disse — Ontem no grupo das primas ela falou que não ia poder ir para a casa do tio Almir porque como ela é profissional da área da saúde ela está tendo que trabalhar direto.

— Estou tão preocupada com a sua prima tendo que estar no centro disso tudo. Meu irmão está com a pressão altíssima por conta disso. — fala mamãe depois de desligar a ligação com o seu fornecedor. — Carlos já tem pressão alta, nunca mais foi o mesmo depois da separação com a Valéria. E agora Janaína está tendo que trabalhar se colocando em risco.

— Ele vai para a casa do tio Almir também, mãe? — pergunta Cecy.

— Sim, ele disse que já está lá. Pelo que eu entendi chegou ontem. E já passou mal de nervoso por conta dessa situação da sua prima.

— E a tia Valéria? — questiona Malu.

— Está com Janaína. Ela não faz parte do grupo de risco disse que queria ficar com a filha nesse momento tão complicado que o nosso país vai passar. Não quer deixá-la sozinha.

— Pois faz muito bem. — meu pai acrescentou — Também não ficaria tranquilo deixando a minha filha na linha de frente do problema e me isolando do mundo. Infelizmente muitos agentes de saúde tem pego esse vírus, o médico Chinês que tentou alertar o mundo sobre o vírus, o senhor Li Wenliang, além de ter sido silenciado pelo governo Chinês morreu com o próprio vírus.

— Aí, eu estou tão cansada desse assunto! Ainda bem que estamos indo para o mato nos isolar porque eu não aguento mais ouvir as pessoas só falando sobre isso toda hora. — diz Cecy.

— Eu também tenho ficado muito nervosa com esse problema, parece que estamos todos a caminho da extinção.

— Então vamos parar com essa conversa triste e vamos ouvir uma música que temos muita estrada pela frente. — diz mamãe, ligando o rádio em sua estação favorita a Antena 1.

Olá pessoa!

Se é a sua primeira vez aqui seja bem-vindo. Se você já é de casa senta que lá vem mais histórias. Esse livro eu estou escrevendo com uma leitora minha (que também é escritora), Julia Melo. Nós duas nos pegamos pensando nesse período de quarentena que precisávamos de uma forma de desabafar isso tudo que está acontecendo.

E como uma forma de passar por esse momento de tensão necessário decidimos colocar pra fora tudo aquilo que estamos passando sentindo e sendo obrigadas a viver através da vida dos nossos personagens.

Acredito que no momento muitas pessoas estão tendo que ser criativas para manter a sanidade. E essa é a nossa forma de nos mantermos sãs. Espero que seja agradável para vocês lerem esse livro e que ajude a manter também as coisas mais leves por aí.

Nos vemos no próximo cáp. 😉

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